quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Ela derrota a felicidade pelo cansaço. Confunde desejo com pecado. Alegria com loucura. Erra consigo para não errar com os outros. Culpa aos outros por errar consigo. Sonha acordada, se acorda sonhando. Não acredita em expectativas, ilusões. Não acredita em destino, compromisso. Olha pros dois lados antes de atravessar suas vontades. Refuga. Não decide, pede opinião. Fecha a porta de sua alma todos os dias, no mesmo horário. Espia pelo buraco da fechadura. Abre a janela, se esconde atrás da cortina. Sorri na sala, chora no quarto. Deseja chances que já tem. Teme impedimentos que não tem. Ignora a saída, esquece onde entrou. Não se entrega ao amor, espera que o amor a tome.




Ele tem compromisso com seu descaso. Desde cedo, aprendeu a desconhecer seus caminhos. Leva diversão a sério, brinca com assunto importante. Não segue receitas, escolhe ingredientes. Invade suas vontades pela contramão, estaciona em desejo proibido, segue adiante em beco sem saída. Ensina aos mais velhos, aprende com os jovens. Muda quando quer ser o mesmo, continua o mesmo pra mudar. Discute calado, fala alto quando está tranqüilo. Não marca horário, esquece o tempo. Perde o relógio para que o tempo o esqueça. Entra em casa pela porta dos fundos, sai pela janela. Guarda os livros na estante da cozinha, almoça no quarto. É orientado pela desorganização, se espalha para se encontrar. Vive a insensatez possível, o amor impossível, a insensatez do amor. E todos os dias, antes de deitar, ele se pergunta por que o mundo está tão desordenado.


textos: Fernando Palma

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